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terça-feira, 11 de setembro de 2018

LULA, HADDAD E O POVO BRASILEIRO - CORDEL

Lula, Haddad e o Povo
Por Reginaldo Veríssimo

O melhor presidente do Brasil
Sofre vergonhosa perseguição
Estrategista como Virgulino
Lula a Haddad passa a missão
Para salvar o país do confisco
Como dizia o valente Corisco
--Sou um cabra de Lampião

--O golpe me encarcerou
Haddad é minha indicação
Uma ideia não se apreende
Por mais fornido grilhão
Não sou nenhum maluco
Sou filho de Pernambuco
Assim como o Lampião

A elite fingida não perdoou
Na minha administração
Negro e índio virou doutor
Pau de arara andou de avião
Na urna ninguém me enfrenta
Haddad hoje me representa
Ele é minha ressurreição

Chamam-me de analfabeto
Pelo mundo fui condecorado
Nisto tem muito de inveja
Da rançosa elite do passado
Donde a direita é resultante
Haddad é meu representante
Com ele é golpe noucateado

IILula, Haddad e o Povo

Sou uma vítima inocente
Deve ser uma provação
Afastaram-me das ruas
Os golpistas de plantão
FHC e a sua pinguela
Com Haddad e Manuela
Venceremos esta eleição

Amargo uma prisão política
Está mais do que provado
Mesmo sem nenhuma prova
Fui velozmente condenado
Assim recomendo Haddad
Desde o campo até a cidade
Pra nesta eleição ser votado

Jaz um judiciário nocivo
O Direito se fez político
A toga condenou o povo
Trocar trabalho por bico
Haddad traz a esperança
É mais comida na pança
É a mensagem que indico

O golpe segue sua narrativa
Minha ideia voa como pluma
As togas negras recrudescem
Nos tribunais não ganho uma
O TSE nem a ONU obedeceu
Fernando Haddad vai ser eu
A vitória do bem se avoluma

III. Lula, Haddad e o Povo

Com os Trópicos agitados
2013 inicio da manipulação
A Democracia se balança
O judiciário avança a mão
O legislativo uma bomba
Onde deputado rir e zomba
Rasgaram a Constituição

O fascismo vai ter baixa
O entreguismo cessará
Lula agora é uma ideia
Que se propaga pelo ar
Indica Fernando Haddad
Um cidadão sem maldade
Para esse Brasil restaurar

A nação foi sabotada
O epicentro em Brasília
Forjaram um impeachment
Cunha liderava a matilha
“Com o STF e com tudo”
Esse tribunal ficou mudo
Temer chefia a quadrilha

Rapinas o país destruíram
Por desculpas a corrupção
Na verdade os sem votos
Querem mandar na nação
É um desenfreio sinistro
Juiz enquadrando ministro
Só Haddad tem a solução

IV. Lula, Haddad e o Povo

Venderam nosso pré-sal
Queimaram a cê ele tê
Os royalties da educação
As crianças não vão ter
Por isso Lula é Haddad
Com toda a integridade
Para tudo isso reverter

A dilapidação é crescente
A Eletrobrás está na mira
A Embraer foi negociada
Na Globo só sai mentira
Lula disse para Haddad
--Vá e só fale a verdade
Essa é tua ninguém tira

O preço do gás nas alturas
14 milhões sem ocupação
A gasolina sobe todo dia
Pro pobre restou o carvão
E uma carrada de maldade
Por isso Lula traz Haddad
Pra resolver esta questão

Lealdade para mim é verbo
Diz Haddad ao professor
--Tenho formação política
Na academia sou doutor
Direito, Economia e a bula
Aprendi com o velho Lula
Como ser um bom gestor

V. Lula, Haddad e o Povo

Não se esquecer dos pobres
Uma lição que levo a sério
Fui gestor de São Paulo
Na educação, o ministério
Deixei 100 bi de orçamento
Não descuidei um momento
Só com técnica e critério

Haddad é um cara do bem
Diz Lula para sua gente
--Podem votar sem medo
Nesse jovem e inteligente
Vai fazer o que eu disser
Vai empoderar a mulher
Botar o Brasil pra frente

Faremos o Brasil crescer
Para isso não tem estorvo
Vai ser uma nação plural
É Lula, Haddad e o povo
Gerando emprego e renda
Casa ao invés de tenda
É o Brasil feliz de novo

--Do cárcere dou as cartas
Fiz disso a minha missão
Não renuncio a dignidade
Em catedrático dou lição
É Corrida em revezamento
A Política o instrumento
Pra Haddad passo o bastão

Teresina (PI), 07 de setembro de 2018.
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terça-feira, 21 de agosto de 2018

A LEITOADA DOS FILHOS E AMIGOS DE BURITI

A leitoada foi uma festa e tanto, digna de aplausos de pé e demorados, citação esta apreciada pelo conterrâneo José Deusaniro de Faria Freitas Júnior, o Deusanirinho, uma espécie de reverência que ele faz quando algo lhe agrada.  Festa jamais vista por estas bandas, ganhou corpo em torno da polêmica relativa ao sumiço de uma leitoa, iniciada quando o animal estava a ganhar peso em um chiqueiro de conhecidos, de onde desapareceu, e que seria sacrificada numa festa de amigos, por ocasião dos festejos de Nossa Senhora Santana em Buriti de Inácia Vaz, ou só mesmo Buriti, nome oficial da cidade.

Em razão da grande dimensão deste fato que ganhara as redes sociais, principalmente na plataforma digital do aplicativo batizado por WhatsAAp, mensageiro mais popular do país, o que seria um encontro de gatos pingados, transformou-se numa grande festa chique, regada a uma culinária típica das terras de Inácia Vaz, diversificada e farta, teve leitoa assada e guisada, panelada, feijoada, galinha caipira, churrasco, arroz branco, de pequi e baralhado, cerveja, refrigerantes, principalmente o Jesus, música ao vivo[i], ideia materializada por Odilene, e outras coisitas mais, como a distribuição do brinde do chaveiro da leitoa, inclusive poesia[ii] fechando o cardápio.

Agendada com antecedência para o dia 23 de julho, auge das comemorações católicas da city, em função da padroeira local, momento em que a maioria dos buritienses forasteiros pudessem estar presentes, o furdunço realizar-se-ia no Bar do Careca, figura que ficou conhecida neste episódio como um dos fiadores da abdução da leitoa, mas o grande rega-bofe mesmo terminou por acontecer na bela e aconchegante chácara da professora Valdilene, que além de ceder o espaço também, literalmente, meteu a mão na massa, com a disposição que lhe é inerente.

E por ironia do destino ou mesmo para livrar-se das indiretas, o Careca vendeu o bar, e segundo ele próprio, o comprador exigiu as chaves no exato no dia da festança. Mas nem assim o esperto vendedor se livrou das acusações as quais temia, como é amicíssimo do Odair do Faquinha, o dono da leitoa da confusão, não teve como recusar o convite do dileto primo, pois passou a festa inteira sendo achincalhado pelos colegas, mas é claro por pura diversão. Outro implicado no convescote clandestino, o Maspim, não se importava com as pilheras[iii] a ele dirigidas, presente desde o início, ao contrário de David, seu filho, que sequer compareceu.

O evento ganhou volume, comando e organização a partir dos integrantes do núcleo do coletivo do WhatsApp, denominado Filhos e Amigos de Buriti, citado alhures. Convidados os familiares e a quem mais se dispusesse a marcar presença. A galera compareceu em peso. Os originários do grupo, felizes, vestiam camisas comemorativas e tudo. Deusanirinho, um dos pais do evento, das suas listas de serviços, vieram as contribuições, os pratos típicos, disso nasceu poesia de cordel que virou banner, por ele mesmo interpretada, muita comida, bebida, musica, conversa amiga e diversão, teve até a loção do Armando[iv] e Renardo Almeida no violão.

Confraternização, celebração de amizades, convívio mesmo que por efêmeros instantes, são os reais e verdadeiros motivos de uma festa como essa. O factoide da leitoa do Odair, nesse aspecto, cumpriu a função social de ponte, de caminho, de interligação, um acesso, um atalho para uma motivação maior, qual seja, a gratificante interação transmutada das telas digitais dos smartphones em forma de mensagens de áudio ou de dados, que mais isolam do que incluem, para o corpo a corpo, para o ao vivo, para o tete a tete, proporcionando muitos significados, aromas, paladares, audições, visões e quem sabe toques já esquecidos que só ali puderam ser rejuvenescidos, é a incessante busca pelo enigma.
A leitoada mesmo com a mudança de local de última hora, não deixou nada a desejar, o sítio da Valdilene nos proporcionou ambientação saudável, todos puderam exercer suas performances individuais e coletivas como bem lhe aprouvesse, sem constrangimentos, seja no prato com a leitoa assada ou cozida, na mesa de conversas, dançando com seus pares, ouvindo músicas bacanas, poesia de cordel, discursos de agradecimentos, roteiro para novos encontros e cerveja gelada, item que deve sofrer adaptações. No mais foi um golaço. Parabéns a todos os filhos e amigos de Buriti, direta e indiretamente, envolvidos na organização dessa belíssima festa. Que venham outras e outras mais.


[i] A música da leitoada esteve a cargo da banda H3 de Coelho Neto.
[ii] O cordel que relata os fatos sobre o sumiço da leitoa do Odair, é intitulado de “A abdução de uma leitoa a la Buriti”, de autoria de Reginaldo Veríssimo.
[iii] Coisa que se diz com o intuito de ser engraçado; graça, piada: não havia quem não fizesse uma pilhéria sobre a situação da leitoa abduzida.
[iv] Trata-se de uma infusão malcheirosa que o Armando Machado costuma lambuzar invariavelmente o pescoço dos presentes, nas festas que participa.
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domingo, 11 de fevereiro de 2018

O Alambique de Maria Izabel, por Walnice Galvão*

Maria Izabel e seu alambique
Dona Maria Isabel, esta aí da imagem, ocupou o pódio de conferencista outro dia, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc SP, uma espécie rara: uma mulher fabricante de cachaça. Ou, em suas próprias palavras, uma “cachaceira”.
Esta raridade vem de Paraty, onde planta cana em curvas de nível no sítio à beira-mar Santo Antonio, passa-a pela moenda, destila-a no alambique, engarrafando e vendendo a cachaça de primeira e com appelation contrôlée (como dizem os franceses) que leva seu nome: Maria Izabel.
O nome, tal como figura no rótulo, já é todo um romance. Não tão narcisista, conta que tentou registrar o nome de Santo Antonio, que é o do sítio. Entretanto, todos os nomes de santo já estavam tomados. Um dia, chegando a um boteco de beira de estrada de fregueses seus, ouviu uma discussão sobre “a Maria Izabel”, e achou esquisito até perceber que a discussão era sobre a cachaça, não sobre sua pessoa: a cachaça já tinha nome na boca do povo.
Faltava o rótulo, que acabou tendo ilustre linhagem. Quem o criou, por gentileza de Liz Calder, fundadora da editora inglesa Bloomsbury e veranista de Paraty, foi o designer Jeff Fisher, ilustrador da saga de Harry Potter, florão da editora. Bem naïf, mostra uma paisagem tropical paradisíaca. Liz Calder, afora tudo isso, é também a criadora da Flip, ou Festa Literária Internacional de Paraty.
A conferencista conta com muita simplicidade que não decidiu mudar o mundo nem fazer uma grande bebida, mas começou plantando cana nesse pedaço de chão de apenas 4 hectares, na baía de Paraty, e, de passo a passo e quase sem perceber, quando viu estava fabricando uma excelente cachaça.
Não chegou lá sozinha, mas procurou produtores experientes de outros engenhos, consagrando-se à preciosa aprendizagem. Um deles foi o finado Pedro Peroca da Fazenda do Fundão, que lhe ensinou a técnica secreta da fermentação, que ela, em atenção a ele, não divulga de jeito nenhum.
Passou a experimentar diferentes barris e diferentes madeiras, até acertar em duas: o jequitibá que interfere menos e o carvalho que interfere mais, nos quais a bebida repousa no mínimo por um ano.
Faz questão de que tudo seja orgânico e biológico, com aproveitamento total. O bagaço da cana moída e o vinhoto vão adubar a plantação. Mantem uma enorme composteira, onde recolhe todo o lixo que sobra do processo, somado ao da casa e ao do galinheiro.   
Dá conta de tudo com apenas quatro funcionários; mas ela mesma não tem medo de trabalho e põe mãos à obra o ano inteiro, mais no período da safra anual, menos na entre-safra. Só o processo obrigatório de limpeza todo ano de todas as fases do processo – alambique e artefatos de apoio – para evitar a formação do óxido de cobre ou azinhavre, venenosíssimo, já é pesado. Tudo é areado com devoção e cuidado. A serpentina, que devido a sua forma e calibre não pode ser esfregada por dentro, é lavada com suco de limão-cravo (tal como nossas avós faziam com os tachos de cobre, adicionando sal), de que são necessários 40 litros por vez, o que obriga Maria Izabel a plantar limoeiros e armazenar os frutos, inclusive congelando-os.
A melhor cachaça, diz ela, é aquela feita com cana recém-cortada e, portanto, não estocada. Porque se demorar um pouco, a cana já começa a fermentar e resulta em acidez. Todo o processo exige rigor e pureza absoluta, porque qualquer imperfeição vai incidir sobre o gosto final.
A produção é pequena, variando entre 6 e 8 mil litros por ano, mas ela não tem intenção de aumentá-la, porque isso implicaria em abdicar do critério artesanal e da qualidade.
Ultimamente está tentando obter aprovação oficial para o resgate de uma preciosidade, a Laranjinha Celeste, denominação que descobriu nos papeis de seus antepassados “cachaceiros”. Trata-se de uma cachaça destilada com folhas de mexerica, que lhe conferem um perfume especial e a tornam azulada: donde o lindo nome. Antigamente, ela era fabricada por seu mentor e mestre, mas foi-se com ele. Ele era famoso pela “Azulada do Peroca da Fazenda do Fundão”, rótulo que é a soma de duas redondilhas maiores, esse verso típico da poesia lusobrasileira. Tomara que consiga.
*Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
GGN
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

A saga dos Ferraz e a melhor cachaça do Maranhão

Casa sede do engenho Ferraz. Fotos: Reginaldo Veríssimo
O alambique Paulino Ferraz localizado no povoado Olho D'água do Tolentino, no município de Santo Antonio dos Lopes, em atividade desde o início da década de 1930 do século passado, fabrica artesanalmente uma das melhores pingas do Maranhão, a produção de cachaça dos Ferraz já está na terceira geração, caminhando para a quarta.

O negócio teve início com o senhor Joaquim do Sítio, originário de Picos no Estado do Piauí, que por volta de 1930 se estabeleceu numa pequena gleba de terras denominada Quinta do Deó, adquirida do proprietário de mesmo nome que também cultivava cana de açúcar para fabricação de aguardente. 
Paulino Ferraz com a mão na massa. 
Joaquim, o pioneiro dos Ferraz, repassou todos os conhecimentos acumulados ao longo dos anos na produção do destilado aos filhos, que por sua vez multiplicaram para os demais descendentes. No início o engenho era movido a tração animal, puxado por bois criados ali mesmo, mais tarde a motor de explosão, hoje é uma máquina movida a energia elétrica, ofertando maior produtividade ao empreendimento. 
Máquinas (motor e moendas). 
Vale lembrar que o primeiro motor dos Ferraz, era alimentado a óleo diesel, foi comprado no início dos anos de 1970, pelo senhor Paulino Ferraz de Sousa ou só Paulino Ferraz, de segunda mão, com mais de 30 anos de uso, em Pedreiras, do herdeiro de um antigo produtor rural, adquirido diretamente  da Escócia. A velha máquina é uma relíquia da família.
  Paulino pai com os filhos, Paulino Filho, Flávio e os amigos Jadiel e Nonato DJ.
O seu Paulino Ferraz é um típico sujeito feliz, alegre que gosta de gente, vive rodeado dos filhos, netos e amigos, conta piadas como ninguém, como também gosta de ouví-las. Conta ele que certa vez viajando numa excursão para Sucupira do Norte, aqui mesmo no Maranhão, acompanhado de amigos como Jadiel França, Nonato Alves, o DJ, este último contador de Piadas.

Sucede que Sucupira, o destino final da caravana, fica a alguns quilômetros depois da entrada para a cidade de Jatobá. Nonato, então, se assenhorou de navegador, não podia ver uma entrada ou uma bifurcação da estrada, que se punha a dizer é a entrada do Jatobá, passaram-se todas as entradas, e nada dele identificar a entrada de Jatobá, daí em diante falar em Jatobá ali era uma graça, puxada invariavelmente por seu Paulino, que até hoje dar gargalhas quando lembrado desse episódio.

Voltemos então a história dos Ferraz envoltos com a melhor pinga da região, tocada hoje em parte pelos netos do fundador, vez que seu Paulino com 68 anos de idade, completados no último dia  22 de junho, é duro que só as moendas do velho engenho, administra o alambique em parceria com os filhos: Flávio, Paulino Filho e Francisco Ferraz ou Bida, o cambiteiro do engenho, esse sabe tudo de cambito, cambita lenha, cambita cana, cambita até quem tiver por perto, função por demais importante porque se o Bida nâo cambitar não haverá garapa para alambicar. 

Com critério, paladar refinados, o velho e os novos Ferraz: Flávio, o mecânico, químico nas palavras de Nonato DJ e Paulino Filho fazem daquelas terras, da antiga Quinta do Deó passadas nas moendas, dornas, coxos, serpentinas dos alambiques em brasa e muito suor, uma das cachaças mais apreciadas de todo médio Mearim, quiçá do Maranhão, com uma produção atual estimada em torno de 18 mil litros ano.

Paulino, o pai, faz questão de se ombrear com os mais novos da família na lida, apesar da idade é um gigante, executa todas as tarefas com a maior energia. Rapadura, mel e batida são outros produtos do engenho dos Ferraz, produzidos mais para  subsistência uma ou duas vezes por ano. Essa tarefa é encabeçada e dirigida exclusivamente por ele, por ser trabalhosa e pouco rentável, os filhos não se interessam muito por essa atividade. Esse é o nosso testemunho, um naco da saga dos Ferraz no Maranhão.

Por Reinaldo Veríssimo 
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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O cadáver do Reitor explica o sentido da Operação Ouvidos Moucos, por Armando Coelho Neto

Com perplexidade, li a sinistra nota da Associação dos Juízes Federais do Brasil (AJUFE), em conjunto com a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) e a Associação dos Juízes Federais de Santa Catarina (AJUFESC).  Nela, registram que, ao mesmo tempo em que lamentam a morte do reitor Luiz Carlos Cancellier e se solidarizam com a família “nesse momento de dor”, vêm a público repudiar afirmações de eventuais exageros na Operação Ouvidos Moucos.

​O sinistro começa por aí. Não enxergam exagero algum numa ciclo de ações que soam como represália coronelesca das brenhas. A ação em tela é só mais uma, num conjunto de outras, que não precisam ser enumeradas. Genericamente, os desastres das operações da PF, não raro com endosso do Ministério Público Federal (amparadas por ordens judiciais), de há muito têm ares grotescos. Faz tempo que até o suspeitíssimo Gilmar Mendes fala de “prisões espetacularizadas”. Sem embargo, os calendários para desenvolvimento e os vazamentos seletivos por si sós garantem a chancela de ações políticas. A rigor, traduzem a explicita partidarização, nesses tempos de ausência e negação de provas permitidas em direito. Revelam o espírito do golpe e do “Direito Penal do Lula”.

Desse modo, soa grotesco tentar minimizar exageros, sobretudo quando, em que pese o preenchimento de alguns requisitos legais, trazem a marca do voluntarismo subjetivista. Um subjetivismo moralista que se contrapõe à subjetividade da dor alheia espezinhada. O “respeito” que a nota registra em relação à família não foi o mesmo quando a fúria punitiva humilhou publicamente um homem com história, currículo e DNA democrático. Um reitor de universidade foi tratado como rábula, mas, para os oficiantes do moralismo de plantão, isso não é dor. Como dito no texto da semana passada, são ações executadas por pessoas para quem dor é o dedo preso numa porta. Desse modo, a dor em relação à família, em detrimento da dor do então vivo, soa como mera retórica corporativista, de quem está “acima do bem e do mal”.

Não há perdão, já o disse e repito: a Polícia Federal entrou para a história dos golpes, e, o Ministério Público, que deveria ser o fiscal da lei, tem feito leituras de rasas e de conveniências da lei. Basta comparar a postura da Procuradoria Geral da República em relação ao grampo da legítima presidenta Dilma Rousseff (Fora Temer!). O que dizer do endosso ao impedimento de nomeação do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva para ministro da Casa Civil (Dilma)? O que dizer de caso similar sobre a nomeação de Moreira Franco, cuja secretaria foi transformada do dia para a noite em ministério, em pleno curso de denúncias e investigações? Onde estava o fiscal da lei quando um procurador “designado” pelo panfleto político conhecido por Veja queria se antecipar a Sérgio Moro para prender Lula? Onde estava a tal Ajufe quando Sérgio Moro inventou o “convite coercitivo” para Lula?

Quem matou o reitor foi quem concorreu para a degradação pública de sua história. A vítima não teve direito à subjetividade da amargura, nem à dor com a qual não conseguiu viver. A imprensa jogou sal na subjetividade de uma ferida idiossincrásica. Coisas do limite humano! E agora, cumpre perguntar: quem promoveu a degradação pública de pessoas, destruiu biografias - inspirado numa série de outras similares? Que juiz para proferir uma sentença, ora assume papel de acusador, ora de palestrante formador de opinião pública? Ora assume o papel de vítima, para tentar explicar porque ignora essa ou aquela prova ou falta dessas? Quem tentou prender o acompanhante de uma pessoa com câncer dentro de um hospital? Quem foi prender e quem deu manifestação favorável? Quem foi que, repentinamente, converteu essa mesma prisão de natureza necessária para desnecessária? Quem foi que se escudou num “eu não sabia”, quando Lula (por dedução) “sabia de tudo”?

É preciso contextualizar o suicídio do reitor. O “golpíchment”, viciado na origem, seguiu os trâmites da “maconha intrujada”. Hoje, são fartas as notícias de votos comprados. Viciado “ab ovo”, o estupro à democracia se deu com omissão da suporta “Alta Corte”. Não vi notas de delegados, procuradores e juízes defendendo a moralidade, estado de direito, democracia. Desse modo, soam torpes os argumentos da nota, numa democracia destroçada.  As instituições públicas têm como aliadas uma imprensa corrupta, que se encarrega de preparar o espírito dos leigos para aceitar como normal as ilegalidades  e o autoritarismo em curso, maquiados de pretensa legalidade.
A carta assinada pelos tais operadores do direito traz a marca do “quem usa cuida”. Já que suas ações são politizadas, só lhes resta a insólita conclusão de que debater excessos é politizar a tragédia. Vejam o que dizem: “Ao contrário do que vem sendo afirmado por quem quer se aproveitar de uma tragédia para fins políticos, no Brasil os critérios usados para uma prisão processual, ou sua revogação, são controlados, restritos e rígidos. Uma tragédia pessoal não deveria ser utilizada para manipular a opinião pública, razão pela qual as autoridades públicas em questão, em respeito ao investigado e a sua família, recusam-se a participar de um debate nessas condições”. Como assim?

Haja peroração! “Os integrantes das respectivas carreiras, não apenas na referida operação, como também no exercício de suas demais atribuições funcionais, norteiam-se pelos princípios da impessoalidade e da transparência, atuando de forma técnica e com base na lei”.

É de se perguntar: qual a impessoalidade em ações dirigidas para o Partido dos Trabalhadores, previamente anunciadas para a imprensa? Qual a impessoalidade de um delegado federal que fez campanha para o candidato Aécio? Que dizer de Sérgio Moro em fotos ao lado de João Dória, Aécio Neves, Gedel Vieira, Michel Temer, Geraldo Alckmin? Qual a imparcialidade dos oficiantes da Farsa Jato nesse contexto político?
Ah, tá. “Hoje você é quem manda, falou tá falado, não tem discussão”. Qual a importância de uma tragédia pessoal diante de vossa impunidade e de vosso corporativismo? Sim, sei, “timing é tudo”. A solidariedade às vítimas é condenável, é coisa de "aproveitadores". Só a defesa dos algozes é moral. Como donos da verdade, não toleram contestação. A julgar pela postura, são seres infalíveis, acima do bem e do mal. “Probleminhas em operações acontecem. Fazer o quê”?

Um homem público movido pelo sentimento do injusto se mata e os representantes daqueles que, técnica e genericamente, contribuíram para sua morte, se recusam ao debate. E o mais grotesco: não o fazem "em respeito à família" do falecido reitor.

Pasmem! Não querem a opinião da sociedade em tragédias decorrentes de seus atos - da quebra de empresas à destruição de biografias. Se não querem debater, não querem ouvir ninguém, o silêncio sobre o cadáver do reitor explica bem o significado do nome “Operação Ouvidos Moucos”.

Armando Rodrigues Coelho Neto é jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

GGN
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domingo, 8 de outubro de 2017

Doria, a samambaia que se tornou presidenciável, por Luis Nassif

Há uma busca do candidato de um centro democrático, seja lá o que se entenda por isso.

Teoricamente, seria uma área de convivência entre liberais e sociais-democratas, que visasse preservar o país da radicalização que se anuncia e, especialmente, de um maluco de ultradireita.

O posto de candidato do centro democrático está vago.

São curiosos, aliás, os movimentos oportunistas que se formam em tempos de desconserto geral. Qualquer um se julga com oportunidade, do economista liberal aos velhos nacionalistas, passando por antigas apresentadoras de TV, apresentadores atuais. Teve 15 minutos de fama? Já pode se candidatar a presidenciável. Nem a Loto desperta tantas fantasias.

A prova dos 9 se dá quando se colocam à campo. E, aí, é ilustrativa a experiência João Doria Júnior.

Dória é um outsider que se tornou prefeito por várias razões, nenhuma ligada ao seu mérito próprio.

A primeira, ao fato do governador Geraldo Alckmin não ter um substituto à altura. Assim como outros coronéis do PSDB, Alckmin não aceita um Exército com oficiais, só sargentos que não possam questionar seu comando. Na hora das batalhas secundárias, não há oficiais disponíveis e, aí, toca a apostar em outsiders. O último político paulista desprendido foi Franco Montoro, que acabou devorado por Orestes Quércia.

A segunda, o antipetismo dos paulistas, que daria a vitória para qualquer poste. Pularam de um poste a outro até se fixar na samambaia Dória, aquela que vai se enroscando em todos os pontos, até ganhar raízes próprias e sufocar o criador.

Os figurinos de Dória
Os mais velhos devem se lembrar de um quadro hilário do humorista Serginho Leite em que ele imitava, ao mesmo tempo, Agnaldo Rayol e Agnaldo Timóteo. Para tanto, pintava metade da cara de preto e a outra de branco e ficava com o perfil correspondente a cada Agnaldo, quando soltava a imitação.

Lembra Dória hoje.

Havia dois figurinos para o antipetismo. O mais legítimo era o da figura do gestor, divorciado da velha política, atuando cientificamente. O segundo, a do caçador de petistas, raivoso, iracundo, hidrófobo. Ambos, como antíteses do político tradicional, aquele que não se rende às facilidades das alianças ilegítimas, ao pragmatismo malandro da realpolitik.

Grandes políticos, Brizola, Covas ou Maluf, cada qual no seu campo, seguiam um conjunto de valores quase imutáveis, porque a incoerência e/ou a deslealdade, quando percebidas pelo eleitor, são veneno na veia da imagem do político. O marketing, para eles, era apenas uma maneira de projetar sua personalidade pública.

No caso de Dória, não.  Ele é um androide, totalmente desenhado pelo marketing, não o marketing planejado, mas o do improviso.

O primeiro engano foi o ataque de prepotência que acomete todo espírito vaidoso, quando assume um cargo não previsto e se deslumbra. Acaba acreditando que todo mérito é seu. Lembro-me até hoje da ex-governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius, me telefonando – a respeito de críticas que fiz ao seu açodamento, quando Ministra do Planejamento de Itamar – e dizendo: que culpa eu tenho de ser alta, bonita e inteligente?

Dória pegou vento a favor e passou a achar que ele conduzia o vento. Depois, assumiu e, no período de carência – que todo político eleito tem – praticou duas ou três jogadas de marketing que foram bem recebidas, justamente porque se estava no período de carência. Aí, passou a se considerar dono de uma intuição fulminante. Todos seus passos seguintes não obedeceram a nenhum planejamento. Qualquer problema poderia ser resolvido com uma desculpa criativa e um factoide qualquer.

Como alertamos várias vezes, trata-se de uma estratégia suicida. A facilidade atual em disseminar imagens exige um cuidado adicional com a superexposição. Doria passou a se comportar com mais assanhamento de uma adolescente vidrada em selfies.

E aí, apareceu o lado mais sombrio de sua personalidade: a grosseria, o oportunismo, a deslealdade, a ambição explícita. Mas, principalmente, o perfil contraditório, do sujeito que muda de opinião ao sabor das circunstâncias.

Semanas atrás, escrevi um artigo sobre a imagem tortuosa que Dória estava criando de si mesmo, do sujeito rancoroso, agressivo, desleal, de índole ruim. Dias depois, em encontro com artistas e jornalistas em sua casa, em um trecho gravado pelo Estadão, ele como que respondeu ao artigo, dizendo da impressão falsa que estava construindo sobre ele, que no fundo era um bom rapaz, coração bom, generoso etc.

Mas não adianta.

A biruta de aeroporto
Agora está em plena procela e o barco não obedece mais ao comando do piloto.

Dória precisa consolidar alianças políticas pelo país e não para de viajar. Aí, saem duas pesquisas mostrando queda na aprovação do gestor. Ele volta correndo e cria mais dois factoides. Mas, aí, percebe que Alckmin pode estar se fortalecendo em outras regiões e sai correndo atrás do prejuízo.

Nesse ínterim, sofre uma crítica de Alberto Goldman, e responde com uma agressividade sem limites, tratando Goldman como um fracassado porque velho e aposentado. Nesses tempos de insegurança generalizada com o desemprego, imagine-se como tal afirmação irá cair para os eleitores.

Nessa ânsia de agarrar todas as oportunidades, vai se ampliando a falta de coerência do seu discurso.

Confiram suas entrevistas dos últimos dias. É uma biruta de aeroporto. Diz que respeita Bolsonaro, mas seus métodos de gestão são diferentes. Que mané gestão? Entra em divididas, das quais deveria se poupar – como a questão da censura à exposição de arte – e, no momento seguinte, tem que se explicar para o público mais esclarecido. Depois, faz campanha contra a corrupção e, ao mesmo tempo, apoia Temer. Dá declarações sobre a importância de acordos políticos, para ganhar tempo de TV e, depois, faz um malabarismo incompreensível para explicar como joga de acordo com as regras do jogo da velha política, e pretende se apresentar como o novo na política.

Alckmin não é sabido, mas é esperto. Conhece suas próprias carências e se poupou ao máximo. Dória tem a imprudência dos megalômanos. E, com isso, deixou o centro democrático à procura do seu sir Galahad.

GGN
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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Falece em Buriti de Inácia Vaz Dona Zita a matriarca da família Ventura aos 101 anos e 6 meses

Dona  Zita, nome de batismo Alzira Vieira dos Santos, Faleceu ontem por volta das 23:00 horas, de morte natural, no Povoada Areal, Buriti de Inácia Vaz - MA, na casa de sua filha Teresinha e de seu genro Raimundinho, onde está sendo velada e o sepultamento será às 16:00 horas no cemitério da cidade. Dona Zita a mais longeva ascendente dos Ventura, assim dito, por ser viúva de José Cardoso da Silva, conhecido carinhosamente por todos como  Zeca Ventura, nome herdado de seu pai.

Foram mais de 100 anos de luta desta guerreira a Dona Zita ou Alzira Vieira dos Santos, como ela gostava de ser chamada. Agora com a sua partida fica as lembranças de alguns momentos felizes ao lado dos seus. Em um desses momentos ouviamos ela dizer que tinha parentesco com índio, pois alguém dela tinha sido pego a dente de cachorro e descendia de caboclo da Serra da Meruoca para mostrar que era uma mulher autêntica.

Hoje é um dia muito triste para nós por causa da sua morte, mas deve prevalecer a nossa especial homenagem a Dona Zita, uma mulher verdadeira, exímia contadora de histórias, uma avó divertida, bem-humorada e que sempre fez questão de dar atenção aos seus netos. Até seu vestir era alegre, gostava de roupas bem coloridas, as flores eram suas preferidas, sempre dava um jeito de ter algumas no seu jardim para alegrar o coração das pessoas que lhe visitavam.

Para a mãe Zita não tinha tempo ruim, fazia o bem a quem quer que fosse, rezava de quebranto, mal-olhado, erisipela, carne quebrada, osso desconjuntado/rendido, engasgo, arcas e espinhela caídas. Engraçado na reza das arcas ela dizia: __chovê aqui meu filho vou medir primeiro, e media. __Vixe Maria, mas tá caída de mais, passa de 4 dedos, daí fazia a reza, media de novo e mostrava, __olha como já melhorou dois dedos, vá e não esqueça de voltar.

Ah Dona Zita! Você era muito engraçada, divertida, nunca botava cara feia para ninguém, sempre querendo agradar a todos, os netos então, dava o que tinha e o que não tinha para vê-los felizes. A casa dela era como coração de mãe sempre cabia mais um sem expressar incômodos, era mesmo uma satisfação acolher as pessoas, até tinha um dizer que falava em São Valentim, mas não me recordo agora.

Quando mais jovem não faltava uma missa, para ela eram sagradas, também gostava de passear conversar com as pessoas, quando encontrava um neto, um filho ou mesmo um conhecido era uma festa, abraçava, dizia uma graça e sorria, dançava. Se um desses se apresentasse mais atrevido, curioso e perguntasse o que portava na sacola, se saía com suas tiradas desconcertantes: __ é castanhita, e dava uma risada, o perguntador, frustrado se continha.  E quando lhe tiravam do sério, rodava a baiana, e logo gritava: __eu sou Santa Rita atrás de mim ninguém grita.

A nossa avó, que Deus a tenha em um bom lugar, brincava de roda com as filhas, depois com as netas, cantava, ensaiava até uma dança mesmo sem ser dançarina, uma graça. Na culinária, gostava de fazer buxada, cuxá e outros quitutes. Teve tempo que fazia queijo, disto não me lembro, mas nos disseram. Um tanto inquieta fazia de tudo, sabão então era com ela mesma. Uma artesã de primeira, a partir da palha de carnaúba bruta, das suas mãos saiam belos sombreiros ou os velhos e bons chapéus de palhas para o conforto das cabeças dos trabalhadores, invariavelmente amigos.  

Ficamos por aqui com a nossa dor da partida, mas convictos de que nossa avó Zita cumpriu com sua missão na terra, Mulher lutadora, autêntica, trabalhadora, guerreira, sofreu, brincou se divertiu e foi feliz. Agora sai da vida para entrar na história cotidiana das pessoas comuns, que para nós os seus familiares sempre será uma pessoa especial, o nosso Adeus Dona Zita. O nosso abraço a todos os tios, primos e os demais amigos e parentes.

Reginaldo Veríssimo
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